16/09/2017

Resenha: Mansfield Park - Jane Austen

Título original: Mansfield Park
Gênero: Romance
Páginas: 568
Editora: Martin Claret
Classificação: 5/5
Comprar: Submarino
O livro Mansfield Park, publicado em 1814 pela autora inglesa Jane Austen, nos traz um romance profundo que retrata com afinco a sociedade inglesa do século XIX, bem como seus costumes e convenções sociais. Considerado por muitos um dos livros mais autobiográficos de Austen e escrito pela romancista quando ela já tinha 39 anos, Mansfield Park descreve a sociedade rural daquela época, fala de forma sintetizada sobre a escravidão e, acima de tudo, nos traz personagens meramente humanos que vivenciam a solidão, o amor, o ciúme, a inveja e a decepção, dentre outros sentimentos conflituosos e intensos.

Criada desde os doze anos de idade pela família Bertram, Fanny Price se tornou uma garota dócil, tímida e extremamente passiva, realizando todos os caprichos e desejos de seus tios e primos ricos. A única pessoa no seio dos Bertram que a trata com bondade e ternura é o seu primo Edmund, dono de bom coração e que almeja o sonho de se tornar clérigo. Com exceção dele, Fanny é vista como uma criada pela família e sofre nas mãos de Mrs. Norris, sua tia viúva e amargurada e que mesmo sendo uma das responsáveis pela vinda de Fanny à Mansfield Park, parece não nutrir nenhum apreço pela moça.


Suas primas Maria e Julia Bertram são extremamente vaidosas, pretensiosas e egoístas e menosprezam Fanny a todo momento, deixando bem claro que ela é fruto de um ato de caridade de sua família. Já Tom Bertram, o primo mais velho e futuro herdeiro de Mansfield Park, é avesso a qualquer tipo de responsabilidade e prefere passar os seus dias se embriagando em meio a festas e se afogando em dívidas. O patriarca da família, Sir Thomas Bertram, possui alta renda e é dono de uma bela propriedade e apesar de ter boas intenções, se mostra um pai bastante autoritário e um pouco relapso. Sua esposa, Lady Bertram, é o típico bibelô da sociedade do século XIX, sendo retratada como uma mulher que fica sentada no sofá o dia inteiro com um cachorrinho no colo, enquanto todas as responsabilidades do lar vão sendo tomadas por Mrs. Norris e o esposo.

Porém, a rotina preestabelecida de Mansfield Park muda com a chegada dos irmãos Henry e Mary Crawford. Idealistas e cheios de charmes, eles provocam uma verdadeira avalanche de sentimentos na família Bertram. Henry logo se torna alvo de cobiça das irmãs Bertram e como um perspicaz sedutor, brinca e ludibria com os sentimentos delas, mas o alvo de sua cobiça é justamente Fanny, que mantém em segredo a paixão que nutre pelo primo Edmund já há alguns anos. Entretanto, Edmund se encanta com o jeito liberal e independente de Mary Crawford e não demora muito para que os dois assumam um compromisso. É a partir daí que Fanny revela sua verdadeira personalidade, até então camuflada pela timidez e passividade. Os mistérios insondáveis de sua alma vem à tona e apesar de sua aparência frágil e sempre subjugada, conhecemos o seu caráter genuíno, bem como os seus valores e príncipios.

Mansfield Park não é um livro muito bem aclamado pelos fãs de Austen e há quem o considere extremamente monótono graças às riquezas de detalhe do enredo e às personalidades conflitantes de seus personagens. Entretanto, ele se mostrou  o retrato fiel da dissimulação do século XIX, com todos os seus costumes e protocolos sociais e me encantou ao mostrar a bela força que nasce da passividade e da tolerância por meio da personagem Fanny Price. Narrado em terceira pessoa de modo requintado e elegante e com a ausência de ironia - umas das características marcantes de Austen - o livro conseguiu me encantar, bem como acontece com todas as obras que leio da autora.

"Há ligeiros atritos e decepções em toda parte, e todos podemos ter muitas expectativas, mas, por outro lado, se um plano de felicidade falha, a natureza humana volta-se para outro; se o primeiro cálculo deu errado, fazemos um segundo melhor: encontramos conforto em outra parte."

Fanny foi uma personagem que muito me encantou graças à grandeza de sua alma e aos valores de seus princípios. Sim, ela não é perfeita e creio que Jane Austen moldou as características de suas principais protagonistas com uma linha tênue que beira suas virtudes e defeitos enaltecendo assim a beleza humana e Fanny vivencia diversos conflitos em sua alma, soando até mesmo hipócrita em alguns momentos, mas apesar de sua aparência frágil e desprezada se mostrou uma mulher forte e convicta em suas decisões e opiniões. Ela poderia ter sucumbido facilmente ao charme de Henry Crawford e às expectativas de uma vida melhor, mas no auge da sua introspecção notou o jogo que ele fazia com o sentimento de suas primas e não percebeu traços de autenticidade em sua alma, o que logo a fez rejeitar as intenções do cavalheiro. E sim, ela ponderou muitas coisas em sua mente, principalmente quando vai passar uma temporada na casa de sua família verdadeira e se vê em meio a pobreza e a escassez e a um cenário completamente diferente daquele em que foi criada em Mansfield Park, e mesmo sendo tentada por algumas atitudes, ao final faz as escolhas mais acertadas. Vale destacar também a forte amizade da personagem com o seu irmão William Price, que a torna radiante e ainda mais cheia de vida.

"Creio que a mente que não luta contra si mesma numa das circunstâncias encontraria motivos de distração na outra, e a influência do lugar e do exemplo pode muitas vezes despertar melhores sentimentos do que se tinha antes."

Edmund, apesar de sua bondade e pureza, não conseguiu me afeiçoar. Achei o personagem frágil demais e altamente suscetível e creio que a julgar por sua posição na trama, esperava um pouco mais de fibra e determinação por parte dele. Os sentimentos de Fanny por ele são lucidamente claros, mas a ingenuidade do mocinho é tamanha que ele não os percebe e quando o romance entre os dois finalmente engata, tive a impressão de que ele não retribuiu o amor da prima na mesma medida. Henry Crawford tem características marcantes e notei que o apreço e afeto dele por Fanny realmente eram verdadeiros, entretanto ele é um personagem bastante narcisista e sempre colocou a si mesmo na frente dos outros, independente da situação.

Resumidamente, Mansfield Park foi um livro que me cativou bastante e que soube delinear com maestria os diversos sentimentos que afloram na alma humana - tanto bons quanto ruins - de uma forma intensa e visceral. O panorama rural do enredo, bem como da sociedade da época e as pequenas pinceladas de Jane Austen sobre a escravidão na trama tornaram o livro rico e extremamente interessante, sem contar a bela personalidade de Fanny Price e o despertar da sua força em meio a uma aparência frágil e outrora obediente e pacata. Em 1999, foi feita uma adaptação cinematográfica da obra intitulada Palácio das Ilusões, com a atriz Frances O'Connor no papel principal e que foi extremamente fiel ao enredo de Jane Austen, além de contar com um brilhantismo ímpar por parte do elenco. Já em 2007 foi feita uma minissérie pela BBC com a atriz Billie Piper interpretando Fanny Price que infelizmente não me agradou e creio que isso se deva a desenvoltura dos atores, especialmente Billie Piper, que não trouxe todo o vigor e temperança de Fanny Price para as telas. A capa do livro é muito bonita e marcante e a diagramação está ótima, com fonte em bom tamanho e revisão de qualidade. Recomendo, com certeza!

Confira o trailer do filme Palácio das Ilusões:




Confira o trailer da minissérie de Mansfield Park:




10 comentários:

  1. Oi Nessa,
    Eu só li 'Orgulho e Preconceito' da Jane Austen, mas admiro quem consegue prosseguir nas leituras da autora, rs.
    Acho a escrita bem difícil e temos que estar bem psicologicamente para absorver toda a história, é algo para se prestar atenção enquanto lê.
    Claro que isso não quer dizer que não quero ler, porque eu quero sim! Só acho que não consigo fazer isso nesse momento. Jane Austen é intenso, rs.
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com.br/

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  2. eu ainda não li esse livro da Jane, mas pra sentir que é um livro rico em detalhes e consequentemente em uma verdadeira imersão na cultura londrina da época
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  3. Oi Vanessa,
    A trama me pareceu ser mais madura e os personagens não tão carismáticos, em comparação aos outros livros da autora, mas ainda assim quero ler. Dica anotada!!

    *bye*
    Marla Almeida
    http://loucaporromances.blogspot.com.br/



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  4. Olá Nessa!
    Jane Austen é minha autora clássica favorita da vida ♥
    Eu gosto de todos os livros dela e com esse não foi diferente.
    Concordo com você em vários pontos e acho que a adaptação de 1999 foi muito fiel mesmo.
    Amei sua resenha, passou exatamente minha impressão do livro ♥
    Beijos!

    Books & Impressions

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  5. Oi Nessa, tudo bem?
    Que bom que, mesmo com tantas críticas ruins, você deu uma chance ao livro e gostou. Me senti assim com Morte Súbita hehe. :P
    Beijos,

    Priih
    Infinitas Vidas

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  6. Oi Nessa,
    Tudo?
    Acredita que não li nenhum livro da Jane Austen ainda, vi apenas o filme Orgulho e Preconceito. Esse parece ter mais ou menos o mesmo estilo. Infelizmente pelo que pude notar a autora gosta de detalhar bastante né? É um livro que terei que estar bem disposta a ler. Sobre esse que comentaste não conhecia mas achei bonita a história sim e fiquei mais feliz ainda por saber que existe um filme sobre ela, acredito que me arriscarei antes a ver ele novamente, porque é mais rápido e mais barato. Gostei da dica.
    Beijos
    Raquel Machado
    Leitura Kriativa
    http://leiturakriativa.blogspot.com.br

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  7. Oi Nessa
    Este é um dos livros que eu mais tenho curiosidade para ler da autora, eu comprei o livro e ainda não consegui ler, está aqui me esperando, eu adoro os livros da autora.

    Beijinhos
    https://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

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  8. Oie, tudo bem?

    Nunca li nada da autora, mas já assisti ao filme Razão e Sensibilidade. Não deve ser nada se comparado ao livro heheh Mas que bom que você gostou da leitura! Não tenho muita paciência agora para livros de tal gênero, eu devorei Julia QUinn e estou meio dando um tempo! Beijos,

    www.estranhoscomoeu.com

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  9. Oi Nessa,
    Sou fã da Jane Austen, mas este foi de longe o livro que menos gostei.
    Não simpatizei com os personagens e achei que a trama assumiu ares de novela mexicana em alguns momentos.
    Abraço,
    Alê
    www.alemdacontracapa.blogspot.com

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  10. Olá Nessa,

    Parabéns pela resenha, esse livro está na minha lista de desejados e outros da autora também, quero ler tudo dela,,,,kkk...abraço.


    http://devoradordeletras.blogspot.com.br/

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