22/10/2017

Resenha: Ninguém Nasce Herói - Eric Novello

Edição: 1
Ano: 2017
Gênero: Distopia
Páginas: 384
Editora: Seguinte
Classificação: 5/5
Comprar: Submarino
O livro Ninguém Nasce Herói, do carioca Eric Novello, nos traz uma história bem articulada e original, tecida com um toque de crítica social um tanto quanto interessante e válida. Com personagens bem estereotipados e que lutam com cada fibra do seu ser por aquilo que acreditam e desejam, o romance de Eric Novello se mostrou uma leitura incrivelmente inteligente e edificante, além de ser repleta de analogias.

A história se passa em meio a uma sociedade marcada pela violência e governada pelos punhos de ferro do Escolhido, um fanático religioso que chegou à presidência e dominou o congresso através de diversas manobras políticas. Estimulando uma série de grupos de ódio aos negros, homossexuais, transsexuais, praticantes de seitas e religiões afro-descendentes, dentre outros estereótipos distintos, o mundo se tornou um verdadeiro cenário de caos e destruição. Depois de meses de uma verdadeira massificação do terror, o presidente decide assinar o Pacto de Convivência, que decreta o fim da perseguição às minorias e defende o direito à liberdade de expressão dos opositores. Por meio de seu porta-voz, o presidente alega que o pacto é um ato de boa fé, que pretende restabelecer a paz e dar voz ao time oposto.

Entretanto, o documento é assinado em meio a um clima de descontentamento entre os brasileiros, que estão indignados e recuados pelos grupos extremistas devido às ameaças constantes de violência física e verbal. O que ninguém consegue ainda supor é se o Pacto de Convivência realmente se trata de uma mudança de postura do governo ou apenas de uma manobra de marketing obscura do Escolhido, com um propósito ainda mais sombrio...

É é neste cenário pavimentado de fanatismo e terror que conhecemos Chuvisco, um jovem recém-formado que mora em São Paulo e trabalha como tradutor. O que poucos sabem sobre Chuvisco é que ele sofre de catarses criativas que o levam a imaginar coisas e fatos que não existem de verdade e o fazem mergulhar a fundo dentro de sua própria imaginação. Com a ajuda de um psicanalista chamado Dr. Charles, o jovem consegue contornar suas catarses o máximo possível, entretanto com o declínio da situação política do país, suas crises surgem com força total e cada vez mais vorazes.

Tal como uma pequena minoria, Chuvisco não acredita nas tais ideias pacificadoras do Escolhido e assiste cada dia mais a repressão aumentar, a ponto de presenciar um garoto transsexual ser espancado violentamente na rua. Ele o ajuda e depois disso, o destino dos dois nunca mais se cruza. Chuvisco não consegue tirar o garoto da cabeça e faz de tudo para reencontrá-lo e acaba descobrindo o seu nome, Júnior. Em meio às suas procuras por Júnior, ele acaba conhecendo um grupo de mídia opositor ao Escolhido, o Santa Muerte, que grava vídeos denunciando a violência policial e a corrupção do governo. O jovem tradutor sente o desejo de participar, mas hesita ao suspeitar que eles estão se preparando para um confronto armado.

Enquanto Chuvisco e seus amigos tentam seguir com suas vidas, ao mesmo tempo em que lidam com as complicações e dramas da juventude, acabam se vendo frente a frente com um cenário extremista e violento e decidem assumir seus próprios papéis frente ao caos instaurado e tentar modificar o país na medida do possível. Nem a fantasia e o poder da imaginação são capazes de proporcionar um escape da dura e cruel realidade e os heróis podem estar em qualquer lugar, onde menos suspeitamos...

Ninguém Nasce Herói foi uma leitura que me ganhou do começo ao fim graças ao seu teor realista e repleto de analogias. É impossível não ler o livro e não comparar a história criada por Eric Novello com o que presenciamos nos tabloides e veículos de comunicação e, muitas vezes, até mesmo ao vivo e à cores. A violência caminha entre a humanidade com unhas e dentes e mostra a sua face a cada esquina, a cada instante. Infelizmente, muitas religiões que deveriam pregar o maior mandamento ensinado por Jesus, "Amai-vos uns aos outros como Eu Vos tenho amado", pregam o ódio e discursos inflamados contra aqueles que se diferem da massa e rotulam de pecado tudo aquilo que é diferente e em sua mente estreita não podem compreender. Narrado em primeira pessoa por Chuvisco, somos absorvidos para o seu mundo sórdido e presenciamos todos os sentimentos do personagem em meio ao caos instaurado em seu mundo, bem como os seus devaneios e pensamentos sobre o que lhe acontece.

Conhecer Chuvisco me remeteu não só aos tempos atuais como a também aos jovens de outrora que lutaram avidamente pelo direito à democracia brasileira durante a época da ditadura militar. Ele é inteligente, perspicaz, guerreiro, justo e tem uma sensibilidade ímpar, o que o tornou um personagem humano e quase que palpável. Entretanto, confesso que suas catarses criativas acabaram me deixando um pouco confusa, visto que em muitas vezes, soaram extravagantes e fantasiosas demais.

"Ninguém quer sentir medo ao andar na rua. Ninguém quer ser escorraçado, agredido. Ninguém quer sair de casa sem ter a certeza de que vai voltar só porque pensa ou age diferente. Mas, se gigantes de aço descem dos céus dispostos a te esmagar, a única maneira de sobreviver é reagir, empurrá-los de volta. A verdade é que ninguém nasce herói. Mas isso não nos impede de salvar o mundo de vez em quando."

O círculo de amigos de Chuvisco, formado por Gabriela, Cael, Amanda e Pedro tem personalidades bem semelhantes ao protagonista. Eles batalham e lutam por aquilo que acreditam ser o certo e não hesitam em proteger os oprimidos. Gabriela, inclusive, participa ativamente de uma ONG que acolhe jovens homossexuais e transgêneros e realiza um trabalho voluntário muito bonito. Eles contrastam com o protagonista em um pequeno aspecto: enquanto mergulham de corpo e alma em tudo o que fazem, sem contabilizar os riscos, Chuvisco se retrai um pouco mais e mesmo sendo incrivelmente corajoso e defensor, pondera bastante antes de iniciar algo.

Em síntese, Ninguém Nasce Herói é um livro inteligente e incrivelmente original, que por meio do véu da ficção, retrata a nossa crua e nua realidade, bem como a violência desenfreada que a assola. A trama de Eric Novello também serve de alerta de que as coisas infelizmente, ainda podem ficar piores, caso a sociedade não exercite sua opinião própria e se deixe influenciar ainda mais pela massificação e por conceitos religiosos manipuladores, esdrúxulos e intrinsecamente arcaicos. A capa do livro é bem chamativa e em cores bem atraentes e na contracapa nos deparamos com a ilustração da Estátua dos Bandeirantes - um dos pontos do pano de fundo da trama, que se situa em São Paulo - e a diagramação está ótima, com fonte em bom tamanho e revisão de qualidade. Recomendo ☺

13 comentários:

  1. Oie Nessa =)

    Gostei bastante de Ninguém Nasce Herói, justamente por abordar de uma forma bem realista o contexto histórico atual de nosso país.

    Achei o começo um pouco confuso, mas depois que a narrativa fluiu, não conseguia mais largar o livro.


    Beijos e uma ótima semana para você;***
    Ane Reis | Blog My Dear Library.

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  2. Oiii Nessa

    Não conhecia esse livro, por enquanto ele não foi publicado por estes lares mas espero ver em breve em alguma livraria, a premissa da obra é tão legal e a ambientação também pois poucas são as distopias ambientadas no Brasil ou até na América do Sul mesmo.

    Beijos

    aliceandthebooks.blogspot.com

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  3. Oi Nessa, eu ainda não li, mas essa pegada realista do livro é bem interessante, o tema é tão atual, tão atual que fica parecendo até que é o nosso presente e não uma ficção. Quero conferir em breve! E adorei a resenha, bem completa!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  4. Olá, tudo bem?
    Eu li Ninguém nasce herói e adorei as denúncias sociais que envolvem a narrativa. Realmente é uma realidade futura, no livro, mas que dialoga perfeitamente com o agora.

    No entanto, antes da metade do livro eu já estava insatisfeito com a construção do personagem principal, com algumas descrições fazias, que não funcionaram para mim. Não me convenceu, na verdade. Então o livro para mim ficou apenas OK.

    XOXO, Di
    www.blogvidaeletras.blogspot.com

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  5. Oi Nessa, tudo bem?
    Uau, que trama surpreendente!
    E triste o paralelo com a realidade, né? Nos EUA ou aqui estamos tendo bons/maus exemplos desse conservadorismo. :(
    Beijos,

    Priih
    Infinitas Vidas

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  6. Oi Vanessa,
    Confesso que não sou muito fã de distopias, mas a proposta atual da trama parece interessante, então se surgisse uma oportunidade eu leria.


    *bye*
    Marla Almeida
    http://loucaporromances.blogspot.com.br/



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  7. Oi Nessa, uma trama muito interessante, não conhecia mas fiquei curiosa
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  8. Não conhecia o livro, mas achei muito interessante. Realmente se o povo não abri os olhos o negócio vai ficar mais feio ainda. Menina, quando fui lendo sobre o livro pensei na hora que tem um sujeitinho que provavelmente irá se candidatar a presidência que é esse estilo todo ai do presidente do livro.Pior que corre o risco de ganhar.
    Beijos,
    Monólogo de Julieta

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  9. Olá! Adoro livros que trazem uma crítica social. Para mim, todas as críticas são válidas e reflexivas.
    Estou querendo ler esse livro!
    Beijos
    5 O'clock Tea

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  10. Oi Nessa,
    Tbm curti bastante Ninguém Nasce Heroi e achei a crítica muito necessária para os dias de hj. Essa onda de extremismo religioso, no Brasil e no exterior, é bem preocupante.
    Abraço,
    Alê
    Alem da Contracapa

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  11. Oi Nessa
    O enredo do livro é interessante, me despertou interesse.

    Beijinhos
    http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

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  12. Olá Nessa,

    Parabéns pela resenha, essa é a primeira que leio desse livro e fiquei bem curioso, dia anotada....abraço.


    http://devoradordeletras.blogspot.com.br/

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