01/05/2018

Resenha: Marina - Carlos Ruiz Zafón

Título original: Marina
Gênero: Romance espanhol
Páginas: 192
Editora: Suma de Letras
Classificação: 5/5
Comprar: Saraiva
O livro Marina, do autor espanhol Carlos Ruiz Zafón, nos traz um romance primoroso onde fantasia e realidade se mesclam em um conglomerado indecifrável e incrivelmente surpreendente. Mesmo tendo sido escrito na Espanha no final da década de 90 como um livro juvenil, o teor de suas páginas se mostra a mais exímia obra de um mestre e encanta por tanto talento, destreza e soturnidade. Com personagens corajosos, dinâmicos e absurdamente intensos, o enredo de Zafón te leva a desnudar uma Barcelona de aspecto gótico, majestosa e palco de histórias sombrias e aterrorizantes.

Óscar Drai vive em um colégio interno aos arredores de Barcelona e tem como passatempo passear pelo distrito de Sarriá, um lugar repleto de memórias e de suntuosas mansões góticas. Durante uma de suas incursões pelo sinistro lugar, um gato preto lhe chama a atenção e ele acaba seguindo o soturno bichano, que lhe guia pelos jardins de uma misteriosa residência. Logo ele descobre que o gato se chama Kafka e é por meio dele e de um relógio "roubado" que Marina entra em sua vida.

Marina é uma garota inteligente e incomum, amante de descobertas e com uma sabedoria invejável até mesmo para os adultos. Ela transforma a vida até então monocromática de Óscar para sempre, se tornando uma das suas mais belas e pungentes recordações. O garoto até então inseguro e com pouca experiência de mundo passa por transformações inimagináveis e eletrizantes, que tem como ponto de partida o momento em que ele avista uma misteriosa figura de negro pairando em um cemitério.

Nada do que eu tente falar aqui ou até mesmo explicitar irá fazer jus a todo o brilho e a majestosidade de Marina. Zafón é um exímio contador de histórias e neste livro de quase duzentas páginas, conseguiu sintetizar um romance belíssimo - com todos os ares e nuances do primeiro amor - com uma trama de terror diabolicamente orquestrada, além de arrepiante e norteada até mesmo por uma pegada steampunk. Narrado em primeira pessoa magistralmente por Óscar - onde o personagem apresenta suas mais doces e vis memórias ao leitor - em um ritmo contagiante, surpreendente e nada menos do que incrível, o enredo nos fala sobre vida, morte e o obscuro fio de ouro que une a existência de uma à outra.

Mesmo sendo um garoto pacato e até mesmo inseguro, Óscar possui um espírito aventureiro que é paulatinamente alimentado pelos seus passeios pelas sinistras e feiticeiras ruas de Barcelona. O que ele não imaginava era que ao seguir um gato preto - tal como Alice ao acompanhar um coelho para a sua toca - fosse descobrir todo o poder e a magia do primeiro amor e também uma viagem ao tenebroso e fascinante desconhecido. As narrativas do personagem são ricas, emocionantes e repletas de sentimentos, tornando a história ainda mais majestosa, encantadora e surpreendente. As transformações que a presença de Marina opera em sua vida são quase que palpáveis e divide até então sua pacata e monossilábica existência em duas partes: antes e depois dela fazer parte de sua existência.

"Todos temos um segredo trancado à sete chaves no sótão da alma. Este é o meu."

Marina é uma personagem forte, destemida e incrivelmente inteligente. Ela não possui muitos atributos que a façam se sobressair sobre as demais protagonistas da literatura, entretanto o seu poder reside justamente na sua singeleza e espontaneidade. A sua figura trouxe luz e cor para o enredo de Zafón e não só Óscar foi agraciado com o seu brilho como também os leitores, que se envolvem facilmente com sua graça, leveza e sabedoria.

"A vida concede a cada um de nós apenas alguns raros momentos de pura felicidade. Às vezes são apenas dias ou semanas. Às vezes anos. Tudo depende da sorte de cada um. A lembrança desses momentos nos acompanha para sempre e se transforma num país da memória ao qual tentamos regressar pelo resto de nossas vidas, sem conseguir."

Resumidamente, Marina mescla o romântico e o macabro e mostra que o homem foi colocado na Terra como soberano e com o poder de controlar tudo, exceto a vida; que tanto pode ser uma prisão como o frio linóleo de um laboratório, palco de experiências e atrocidades onde saldamos a punição por nossos pecados. Apesar das poucas páginas, trata-se de uma história intensa, emblemática e que não poderia ser tecida por ninguém menos do que um gênio. A capa é belíssima e intrinsecamente gótica, nos trazendo a imagem de uma garotinha que revela uma soturnidade tremenda e a diagramação está ótima, com fonte em bom tamanho e revisão de qualidade. Recomendo, com certeza!

6 comentários:

  1. tenho muita vontade de ler um livro do autor, a trama parece tão interessante
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  2. Oi nessa, eu nunca li Zafón, mas de uma coisa eu tenho certeza, a escrita dele é maravilhosa porque nunca vi ninguém reclamando! Realmente parece uma leitura densa, quem sabe esse ano eu finalmente leia algo dele!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

    ResponderExcluir
  3. Oi Nessa
    Ainda não li nada do autor, mas tenho muita curiosidade. Quem sabe começo por este.

    Beijinhos
    https://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  4. Oiii Nessa

    Todos os livros do Zafón são super elogiados. Eu quero lr algo dele em breve, com certeza são leituras que fazem a gente refletir e que marcam o leitor por ser diferente, com um toque original do autor.

    Beijos

    www.derepentenoultimolivro.com

    ResponderExcluir

  5. Oi Vanessa, tudo bem?
    Ainda não tive uma oportunidade de ler nada do autor, mas tenho curiosidade, já que todo mundo fala super bem. Ótima resenha!!

    *bye*
    Marla
    https://loucaporromances.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  6. Olá Nessa,

    Ótima resenha, tenho esse livro aqui mas está na minha lista de espera e pela sua resenha tenho certeza que vou gostar muito...abraço.

    http://devoradordeletras.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir