23/06/2018

Resenha: Filha de Feiticeira - Celia Rees

Título original: Witch child
Gênero: Romance
Páginas: 206
Editora: Companhia das Letras
Classificação: 5/5
O livro Filha de Feiticeira, da autora Celia Rees, nos traz uma história  interessante sobre bruxaria, misticismo e feitiçaria na Inglaterra do século XVII, com um rico contexto histórico e religioso. Apesar de ser rotulado como um livro infanto-juvenil, o romance de Celia Rees vai muito além disso e nos mostra de forma profunda um dos períodos mais negros da história do cristianismo, a inquisição e como ideias tão infundadas e puramente preconceituosas ceifaram a vida de milhares de pessoas inocentes. Tecido com um rico panorama histórico e norteado por personagens fortes, corajosos e de fibra, o enredo conseguiu me conquistar logo nas primeiras páginas e se mostrou um dos meus livros favoritos sobre o tema.

Mary Nuttall nunca conheceu os seus pais e acaba de perder a avó, condenada à forca sob a acusação de feitiçaria pelos religiosos da Inglaterra do século XVII. Para não padecer do mesmo destino, a jovem se vê obrigada a ocultar a sua verdadeira identidade e a se esconder na América, onde comunidades religiosas fundadas pelos ingleses estão começando a prosperar. Entretanto, para garantir a sua sobrevivência, Mary precisa esconder os seus dons de clarividência, pois os valores religiosos do Velho Mundo - que tanto provocaram dor e sofrimento na jovem - também se encontram presentes nos colonos da nova terra. O que difere a América do ambiente hostil e castrador vivido na Inglaterra é o convívio da moça com os nativos americanos, que prezam a espiritualidade e acreditam que ela esteja diretamente ligada à natureza, cultura esta que fascina e inspira a jovem feiticeira.

Para Mary, a feitiçaria é muito mais do que ter apenas vislumbres com o futuro. A jovem acredita que ela seja uma disposição para aceitar a autonomia individual e conceder aos seres sua própria forma de expressão, independente de se ter ou não dons mágicos. Entretanto, a sua capacidade de estar aberta para admitir dimensões diferentes da existente se torna um pecado mortal em meio a uma sociedade que apregoa a uniformização coletiva sob o falso pretexto de se tratar de obediência à palavra de Deus...

Filha de Feiticeira, como disse anteriormente, não se restringe apenas ao mundo juvenil e suas vertentes e sim ao poder da magia e, acima de tudo da emancipação, independência, caráter e livre-arbítrio do ser humano. Celia Rees não rotula em seu enredo o que é certo ou o que é errado, mas salienta que tudo pode ser visto de uma forma diferente caso ajustemos a nossa lente de modo apurado e passemos a encarar as coisas e os fatos ao nosso redor sob um âmbito até então nunca explorado. Narrado em primeira pessoa por Mary no formato de um diário, o enredo sintetiza bem os sentimentos e aflições da personagem em meio aos perigos que a cercam, além de frisar com afinco a sua fé e os seus verdadeiros valores em meio a uma sociedade tão "preto no branco".

Eu simpatizei com Mary logo no primeiro capítulo, não só pelo fato da protagonista ter opinião própria e firmeza de caráter, como também por mostrar toda a sua afeição e amor com aqueles que lhe são queridos. Me emocionei bastante com o suplício de sua avó na trama, sobretudo por ter uma narrativa feita por uma adolescente ingênua e com uma parca visão do mundo e do quanto ele pode ser mesquinho e cruel. A dor amadureceu a personagem e foi lapidando sua personalidade pouco a pouco e acompanhar a transformação de menina para mulher de Mary foi edificante e mostrou como a protagonista foi contornando os seus obstáculos e até mesmo se moldando a eles, tal como a água toma forma daquilo que a cerca sem perder a sua essência. O romance no enredo desponta de forma tímida e amena e acaba até mesmo sendo suprimido pelos demais elementos da história, entretanto deixa um gancho promissor para a sua sequência.

"Moramos num chalezinho bem na borda da floresta - minha avó, eu, o gato dela e o meu coelho. Morávamos. Não moramos mais. Vieram uns homens e a levaram. Homens de roupa preta e chapéus tão altos quanto campanários. Enfiaram uma lança no gato e arrebentaram a cabeça do coelho contra a parede. Disseram que não eram criaturas de Deus, mas demônios familiares, o próprio Diabo disfarçado. Lançaram a massa de pelo e carne no monturo e ameaçaram fazer o mesmo comigo e com ela, caso não confessasse seus pecados. Depois a levaram embora"

Os personagens secundários da trama não deixam a desejar e representam bem os seus respectivos papéis, tanto de mocinhos quanto de vilões e os traços na personalidade de cada um deles é praticamente um retrato quase que palpável das figuras que imperavam no período da inquisição. Outro ponto que merece destaque no enredo de Celia Rees é a forma como a autora abordou a feitiçaria e os seus variados conceitos, especialmente ao apresentar o xamanismo, sua filosofia e o princípio dos animais totens. 

Resumidamente, Filha de Feiticeira é um livro sobre diferenças, puritanismo, feitiçaria e a qualidade de manter a sua essência quando tudo a sua volta conspira contra isso. Mostra também o quanto alguns líderes abusam do poder da religião para alienar o seu povo e tentar justificar as suas atitudes mais vis e animalescas. A capa do livro é simples e em tons escuros e retrata a protagonista em meio a um vale solitário e sombrio - o que sintetiza bem o seu estado de espírito ao longo da história - e a diagramação esta ótima, com fonte em bom tamanho e revisão de qualidade. Recomendo, com certeza!

11 comentários:

  1. Oiii Nessa

    Não conhecia esse livro, parece ser bem legal. Eu tenho uma trilogia inteira aqui de feiticeiras pendente pra ler, então vou passar a dica desse porque parece ja bastante com a que tenho aqui, mas se eu gostar do tema quem sabe futuramente.

    Beijos

    www.derepentenoultimolivro.com

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  2. Oi Nessa,
    Estou em uma época bem 'fantástica', acho que vou me aventurar na obra depois de tantos elogios.
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com.br

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  3. oi Nessa, livros com essa pegada não me atraem muito, mas seus elogios me deixaram com aquela pulguinha atrás da orelha de curiosidade
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  4. Oie Nessa =)

    Não conhecia o livro, mas fiquei bastante curiosa depois de ler a sua resenha. Através dela pude perceber que a trama possui vários elementos que me deixam bastante envolvida em uma história.

    Vou adicionar na minha lista já pequena rs...

    Beijos;***
    Ane Reis | Blog My Dear Library.

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  5. Oi Nessa
    Gostei do enredo do livro, não conhecia e fiquei curiosa. Gosto de histórias com esta premissa. Só achei a capa muito simples.

    Beijinhos
    https://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com/

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  6. Oi, Vanessa

    Não conhecia o livro, mas fiquei surpresa que um livro com tal teor seja classificado como infantojuvenil. Gosto muito de histórias com um bom embasamento histórico quando é o caso de épocas e acontecimentos que realmente existiram. Essa característica com certeza me agradaria bastante!

    Beijos
    - Tami
    https://www.meuepilogo.com

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  7. Eu não conhecia o livro (nem a autora). Não faz muito o meu estilo, mas só da Mary ter toda essa firmeza de caráter, já gostei. Tô cansada de mocinhas que aparentam ser uma coisa, mas que no decorrer da história perdem toda a sua força, hehe.

    =)

    Suelen Mattos
    ______________
    ROMANTIC GIRL

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  8. Oi Nessa.
    Não conhecia esse livro, mas achei a premissa muito interessante. Sua resenha também abordou vários elementos presentes na história que me deixaram muito curiosa. Dica anotada.
    Bjus
    Doces Letras

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  9. Oi Nessa! Gosto bastante quando as histórias tem contexto histórico e essa me ganhou e tb acho que vou curtir a protagonista.

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  10. Oi Vanessa, tudo bem?
    Confesso que o tema não é um dos meus preferidos, mas pela sua resenha a trama parece ser bem escrita e o fato da protagonista ter personalidade, já é mais um ponto positivo. Dica anotada!!

    *bye*
    Marla
    https://loucaporromances.blogspot.com.br/

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  11. Olá Nessa,

    Esse é mais um livro que fico conhecendo aqui e já vai para a minha lista de desejados, gosto demais do gênero e quero ler com certeza.....ótima resenha...abraço.


    https://devoradordeletras.blogspot.com/

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