30/08/2018

Resenha: À Espera de Um Milagre - Stephen King

Título original: The green mile
Gênero: Romance
Páginas: 400
Editora: Suma de Letras
Classificação: 5/5
Comprar: Saraiva
O livro À Espera de Um Milagre, do escritor Stephen King, foi publicado originalmente em seis volumes com o título de O Corredor da Morte e nos traz um romance intenso, bem articulado e dotado de sensibilidade - o que foge bastante do gênero literário que consagrou o autor. Tendo como pano de fundo um corredor da morte, a história explora tanto a bondade quanto a maldade humana e nos surpreende com personagens críveis e muito bem desenvolvidos.

Paul Edgecombe trabalhava como superintendente no corredor da morte da Penitenciária Cold Mountain, e a sua função era cuidar para que os prisioneiros passassem o pouco tempo de vida que lhes restasse em paz, bem como conservar os seus parcos traços de humanidade. Seus princípios e ideais sempre foram muito claros no que concernia à vida humana, até o dia em que ele conheceu John Coffey - um gigante com mais de dois metros de altura, acusado de estuprar e matar duas gêmeas de nove anos de idade.


Apesar de todas as evidências apontarem claramente para Coffey, Edgecombe nunca conseguiu enxergar essa imagem de demônio no preso condenado. Algo dentro dele sempre o fez suspeitar da história contada pelos tribunais, principalmente quando ele nota que o preso tem incríveis dons sobrenaturais. Entretanto, foi justamente no corredor da morte que ele descobriu a verdade sobre os poderes especiais de Coffey - verdade esta que abalou todas as convicções e credos que ele carregou por toda a vida. Décadas mais tarde, ele revela o que realmente ocorreu na penitenciária no ano de 1932 e compartilha um segredo que guardou consigo mesmo por toda a sua existência...

À Espera de Um Milagre é um livro que se difere totalmente das obras aterrorizantes de Stephen King, mostrando toda a versatilidade, criatividade e até mesmo, a sensibilidade do autor. Logicamente que por se passar em um corredor da morte, a história não é nada tranquila, sendo permeada por tensões físicas, psicológicas e emocionais. Entretanto, King explora em seu romance o contraste que existe entre o bem e o mal, revelando o melhor e também o pior da raça humana. Narrado em primeira pessoa pelo agente penitenciário Paul Edgecombe, acompanhamos um enredo denso e repleto de sangue, lágrimas e dor, que culmina em uma desconcertante e mágica revelação.

Paul, um senhor já idoso, vivencia longos dias no asilo de Georgia Pines e é justamente a extensão demasiada deste tempo que lhe faz recordar o período em que ele trabalhou na penitenciária Could Mountain. Ali, ele conheceu as piores escórias da humanidade e também vivenciou um dos maiores milagres de sua existência - que acabou por selar o seu destino para todo o sempre. De forma pausada e bem detalhada, ele revela tudo que passou e presenciou no corredor da morte para uma companheira do asilo, incluindo uma terrível e dolorosa infecção urinária na década de 30 e traça um perfil dos presos em seus últimos dias, bem como dos seus colegas da prisão, que sempre o auxiliaram. Porém, a permanência do gigante John Coffey marcou a sua memória perpetuamente e ele carrega não só um misterioso segredo do preso condenado à morte, como também um tenebroso e corrosivo sentimento de culpa por não ter feito mais por ele. Paul é um personagem bondoso, inteligente e um tanto ressentido da vida. Apesar de ostentar uma certa idade, não notei traços de senilidade em sua narrativa e acho que um dos únicos pontos em que notamos um pouco da sua fragilidade mental é quando ele começa a interligar fatos de seu presente com o passado, mesmo tendo até mesmo uma certa conotação lógica para isso. A sua permanência com John Coffey foi curta, porém intensa e acabou lhe marcando bem mais do que ele imaginava.

"O tempo cuida de tudo, quer se queira ou não. O tempo cuida de tudo, o tempo carrega tudo e no fim tudo que existe é escuridão. Às vezes encontramos outras pessoas nessa escuridão e às vezes as perdemos lá novamente."

A personalidade de John Coffey é destrinchada pouco a pouco no decorrer da narrativa. Os crimes que ele supostamente cometeu são cruéis e dilacerantes demais e contrasta completamente com o temperamento do preso, o que me fomentou uma miríade de incertezas e dúvidas. Ao mesmo tempo em que o enxerguei como um monstro, vi um lado excêntrico e até mesmo exótico no gigante de dois metros, que não sabia se se tratava de um desvio de conduta, uma bipolaridade ou até mesmo de uma máscara muito bem arquitetada por um assassino frio e completamente desumano. Com o desdobramento da história, todas as minhas convicções foram lançadas por terra de forma avassaladora e chocante, fazendo com que eu mergulhasse em um verdadeiro turbilhão de emoções. O personagem do John Coffey foi traçado com maestria pelo autor e se tornou o fio condutor de um trama surpreendente, intensa e latente.

"Estou muito cansado da dor que escuto e que sinto. Estou cansado de andar vagando, sozinho como um pardal na chuva. Sem nunca ter nenhum companheiro para ir junto comigo nem para dizer de onde nós estamos vindo nem pra onde vai nem por quê. Estou cansado das pessoas serem más umas com as outras. Sinto como se tivesse cacos de vidro dentro da cabeça. Estou cansado de todas as vezes que tentei ajudar e não pude. Estou cansado de ficar no escuro. Mais que tudo é a dor. Tem demais. Se eu pudesse acabar com ela, acabava. Mas não posso."

Resumidamente, À Espera de Um Milagre é uma das obras mais intensas e sensíveis de Stephen King e, confesso, nunca imaginei que um livro do autor pudesse um dia me levar às lágrimas e a mais completa emoção. Traçando um paralelo entre a mais pura bondade e a mais cruel e atroz maldade, acompanhamos um enredo primoroso, repleto de desdobramentos e com um desfecho surpreendente e quase que mágico. Em 1999, Frank Darabont dirigiu uma adaptação cinematográfica do livro, que foi bastante premiada e elogiada pela crítica e que conta no elenco com Tom Hanks e Michael Clarke Duncan nos papéis principais. Confesso que achei esse um dos filmes mais fiéis a um dos enredos de Stephen King, além de ter conseguido transportar para às telas todas as emoções e palpitações presentes na obra do autor. A capa é dotada por tons pretos e brancos e nos traz um muro rodeado por uma cerca elétrica, com um pássaro alçando voo ao seu redor - simbolizando a estrutura de uma penitenciária - e a diagramação está ótima, com fonte em bom tamanho e revisão de qualidade. Recomendo, com certeza!

Confira o trailer do filme de À Espera de Um Milagre:



6 comentários:

  1. Oi Nessa
    Este livro do autor eu não conhecia e achei a trama bem diferente. Quero ler.

    Beijinhos
    http//:diariodeincentivoaleitura.blogspot.com

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  2. Oi Nessa, tudo bem?
    Esse foi o único livro do King que li e curti. Amo demais o livro e o filme, são sensíveis e comoventes. <3
    Beijos,

    Priih
    Infinitas Vidas

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  3. Oiii Nessa

    Eu adoro esse lado mais sensível do King, onde ele explora todas as facetas (boas e más) do ser humano. Quero ler esse livro.

    Beijo

    www.derepentenoultimolivro.com

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  4. Menina, eu não sabia que o livro tinha sido publicado em seis volumes (originalmente). Eu nunca o li, mas já vi o filme várias vezes e chorei demais. Um dos filmes mais lindos que já assisti. Só posso imaginar como o livro deve ser ótimo!

    =)

    Suelen Mattos
    ______________
    ROMANTIC GIRL

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  5. Gostei da sua postagem, sempre estou visitando seu blog e lendo suas postagens.. Seu blog está salvo em meus favoritos..

    Parabéns!

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  6. oi Nessa fiquei bem intrigada e com certeza gostaria de ler esse livro que inspirou a adaptação belissima!
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com/

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