07/07/2019

Resenha: Sempre Vivemos no Castelo - Shirley Jackson

Título original: We Have Always Lived in the Castle
Gênero: Mistério/Suspense
Páginas: 202
Editora: Suma de Letras
Classificação: 5/5
Comprar: Saraiva
O livro Sempre Vivemos no Castelo, escrito em 1962 pela americana Shirley Jackson, nos traz uma história de ambientação bastante gótica e com personagens bem intrigantes, entrelaçados em um labirinto perturbador de sociopatia, obsessão e maldade. Sendo o último romance publicado da autora, que faleceu de um ataque cardíaco em 1965, a trama gira em torno da família Blackwood, formada por Merricat, Constance e o tio Julian e o véu de isolamento que os três vivem devido a um chocante crime que aconteceu na cidade. Com um enredo bem construído e profundamente insólito, Shirley Jackson nos traz uma história de terror que não tem nada de sobrenatural e que consegue ser até mesmo mais aterrorizante do que qualquer ser das trevas, pois pauta na maldade humana em seu estado mais bruto e macabro.

Merricat, uma jovem de 18 anos, vive com a irmã mais velha, Constance e o tio Julian num pequeno vilarejo no estado de Vermont. Eles são os únicos sobreviventes de uma tragédia familiar que ocorreu há seis anos atrás e da qual Constance foi acusada implacavelmente, o que desde então fez com que a família não tivesse mais paz e vivesse isolada da comunidade local. Quando o primo Charles chega na cidade e logo altera a rotina familiar ao se aproximar cada vez mais de Constance, Merricat sente que o delicado equilíbrio conquistado entre os três está prestes a se romper e ela faz de tudo para proteger o que sobrou de sua família, tomando até mesmo atitudes excêntricas e inesperadas para isso.

Dotado de humor macabro e com uma história pra lá de sombria - envolta por um desfecho bem devastador-, Sempre Vivemos no Castelo se mostrou um livro arquitetalmente construído, insano e de suma importância nos pilares da literatura de horror. Com uma anti-heroína dissimulada, inconstante e perturbadoramente inteligente, o enredo é narrado em primeira pessoa por Merricat de uma forma nada confiável e que vai mesclando inocência com camadas e mais camadas de terror psicológico.

Merricat é uma personagem memorável, ao mesmo tempo que esbanja algumas características que entram em atrito com a sua genialidade. Logo no início da história, ela se apresenta para o leitor e informa ter dezoito anos, mas as suas atitudes bem como a sua linha de raciocínio dentro da trama destonam completamente desta sua faixa etária. Tal comportamento me causou uma grande incógnita ao questionar se isso se tratou realmente de uma falha na construção da personalidade dela ou se foi um verdadeiro golpe de mestre de Shirley Jackson para mostrar a perturbação mental de sua personagem e eu, particularmente, prefiro acreditar na segunda opção. A bruma de amor e devoção que circundam a protagonista é simplesmente horripilante, além de mostrar toda a sua maldade e segregação.

"Meu nome é Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e moro com a minha irmã Constance. Volta e meia penso que se tivesse sorte teria nascido lobisomem, porque os dois dedos médios das minhas mãos são do mesmo tamanho, mas tenho de me contentar com o que tenho. Não gosto de tomar banho, nem de cachorros nem de barulho. Gosto da minha irmã Constance, e de Richard Plantagenet, e de Amanita phalloides, o cogumelo chapéu-da-morte. Todo o resto da minha família morreu."

Enquanto Merricat é exploradora, inquieta e desafiadora, Constance tem um temperamento mais tranquilo e uma conduta mais domesticável e plena. Acusada de ter assassinado os membros de sua família após ingerirem arsênico junto ao açúcar e, posteriormente, ser declarada inocente pelas autoridades, ela prefere não entrar em atritos e aceita as injúrias dos moradores locais pacatamente. Por mais que a chegada do primo Charles incite um interesse romântico entre os dois, a sociopatia, a agorafobia e toda a perturbação de Merricat acabam deixando quaisquer resquícios de romance da irmã num segundo plano.

Resumidamente, Sempre Vivemos no Castelo é um livro intrigante, sombrio e macabro, perfeito para quem curte uma boa trama de horror gótico. Mesmo sem ter o emprego de elementos e seres sobrenaturais, a derradeira obra de Shirley Jackson nos traz uma perturbadora história de terror, do tipo que disseca e pormenoriza o lado mais sombrio da natureza humana. A capa é hardcover e nos traz os espectros das duas irmãs servindo café entre elas, em meio a um fundo degradé com um gato observando ao canto e a diagramação está bem caprichada, com fonte em bom tamanho e revisão de qualidade. Recomendo, com certeza!

3 comentários:

  1. Oiii Nessa

    Quando houve o lançamento desta versão fiquei bem empolgada pra ler por conta desse climão sombrio que todos os livros da Shirley Jackson parecem ter, mas muitas resenhas negativas que li acabaram me deixando receosa com o livro e desanimei total. Ele ainda está na minha lista e quem sabe um dia eu tb me arrisque na leitura, espero curtir igual vc curtiu essa leitura.

    Beijos, Ivy

    www.derepentenoultimolivro.com

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  2. ainda nao conhecia o livro mas fiquei super interessada com sua resenha, parece mesmo uma historia mt bem construida

    www.tofucolorido.com.br
    www.facebook.com/blogtofucolorido

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  3. Oi Nessa,
    Se não fosse pela sua resenha, eu iria jurar que era um chick-lit com essa capa, rs.
    Não conhecia a obra, por mais que tenha sido escrita a tantos anos... Gostei da dica!!!
    beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

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