22/09/2019

Resenha: Os Vestígios do Dia - Kazuo Ishiguro

Título original: The Remains of the Day
Gênero: Romance
Páginas: 285
Editora: Companhia das Letras
Classificação: 5/5
Comprar: Saraiva
O livro Os Vestígios do Dia - vencedor do prêmio Booker Prizer -, do japonês Kazuo Ishiguro, nos traz uma história que se passa na década de 20 a respeito de remorso, culpa e arrependimento. O protagonista, Stevens, nos narra as suas memórias, sobretudo detalhes sobre a sua profissão de mordomo, a qual sempre desempenhou com muito louvor e honra. Em meios aos seus devaneios, Stevens nos demonstra arrependimento sobre alguns fatos, especialmente por não ter aproveitado os presentes que o tempo lhe ofertou, o que torna a sua narrativa interessante e intrigante.

No verão de 1956, após mais de três décadas de trabalho em uma aclamada mansão inglesa, o mordomo Stevens tira uma semana de férias e decide viajar para o oeste no carro emprestado pelo novo patrão, Mr. Lewis. Ele tem planos de encontrar com Miss Kenton, antiga governanta da casa e que acaba de se separar do marido. Durante a viagem, ele vai meditando sobre os estratagemas que regem a profissão de mordomo, ao mesmo tempo em que se recorda de seu antigo patrão, Lord Darlington.


No meio de seu intenso e palpável relato, delineado praticamente como um livro de memórias, temos uma visão interessante sobre as articulações políticas que fizeram com que figuras britânicas de grande influência acabassem apoiando o nazismo e, a partir daí, o caos que se instalou neste período entreguerras. Temos também durante a narrativa de Stevens, mesmo que de uma forma um pouco tímida e orgulhosa, fragmentos de suas relações afetivas e o quanto ele as mascarou e inibiu em prol da sua profissão, o que lhe gera remorso e um desconforto perpétuo.

Considerado como um dos maiores romances do século XX, Os Vestígios do Dia nos traz o tênue equilíbrio entre o dever e o sentimento e o preço que estamos dispostos a pagar em detrimento de um para o outro. O protagonista-narrador nos apresenta suas memórias meticulosamente e discorre sobre os ofícios de sua profissão de maneira diplomática e orgulhosa, com traços amargos de uma paixão que lhe corroeu o tempo. Narrado em primeira pessoa por Stevens em forma de diário, acompanhamos suas lembranças ao trabalhar para o Lord Darlington, o envolvimento do patrão com o nazifascismo e o drama de manter o seu afeto silencioso pela Miss Kenton.

Stevens é um homem refinado e extremamente diplomático, que sempre teve muito orgulho e afinco pela profissão de mordomo. Seu pai seguia o mesmo ofício e inclusive trabalhou com o filho na Mansão Darlington, protagonizando umas das cenas mais doloridas e até mesmo insensíveis do enredo. Tal como regia a um bom serviçal da época, ele sempre foi prático, ágil e extremamente silencioso, mesmo quando os convidados do patrão indagavam a sua opinião a respeito dos mais inusitados e variados temas. Já envelhecido, ele pincela todos os detalhes de sua vida e o quanto se sacrificou em prol do trabalho, abdicando de seus sentimentos e até mesmo de realizações pessoais para isso. Mesmo que ele não explane abertamente sobre o termo arrependimento, até mesmo por ser um homem reservado e muito orgulhoso, fica evidente em suas memórias a carga de culpa e remorso que ele carrega, principalmente quando o personagem se dá conta de que o tempo escorreu pelas suas mãos e que não há nada que o faça voltar atrás e remodelá-lo. Apesar de seus motivos serem paulatinamente explicados no enredo, achei que Stevens demorou muito tempo pra se dar conta do que perdeu, ostentando em grande parte de suas memórias uma personalidade fria e polida de mármore, o que acabou não me sensibilizando quanto ao drama do personagem.

Lord Darlington, mesmo tendo um grande envolvimento com o nazismo e sendo acusado por muitos de ser o responsável por ter colocado a Inglaterra na Segunda Guerra Mundial, não é um sujeito sádico e inescrupuloso quanto Hitler e seus asseclas. Ele se envolveu e de fato, sediou muitas reuniões políticas em sua mansão, demitindo até mesmo os seus funcionários que eram judeus, mas percebe-se que tudo ocorreu de uma forma meio utópica e ludibriante, na qual ele acreditava que as ideias e planos da Alemanha realmente fossem algo altruísta e positivo. Tal como Stevens, ele se arrependeu profundamente deste seu apoio e não sofreu de forma tão velada quanto seu fiel mordomo, deixando evidente pelos recônditos da mansão sua culpa e remorso

Miss Kenton, enquanto trabalhou na mansão, sempre fez de tudo para estreitar os seus laços de amizade e afeto para com Stevens, mas sempre foi friamente rechaçada pelo mordomo. Por mais que ele se encantasse com a simpatia e doçura da governanta, o fiel escudeiro sempre anulou qualquer tipo de sentimento, até mesmo o luto pela perda do próprio pai em detrimento da profissão e por aquilo que julgava se tratar de bons costumes. Achei que a personagem ainda foi resistente e aguentou por muito tempo o comportamento intransponível de Stevens, até que resolveu seguir adiante com a própria vida.

Resumidamente, Os Vestígios do Dia é um diário de memórias repleto de arrependimento, culpa e remorso. Traçando um paralelo entre o público e o privado, Kazuo Ishiguro nos mostra o escamoteamento do tempo e o quanto é importante saber equilibrar e dosar tudo na vida, até mesmo porque o presente é perene e, muitas vezes, não há nada que possamos fazer para remediá-lo. Em 1993, foi feita uma adaptação cinematográfica homônima da obra, dirigida por James Ivory e com um elenco formado por Anthony Hompkins, Emma Thompson, dentre outros atores de peso. O filme, ao contrário do livro, se tornou mais articulado, visto que trabalha com diálogos enquanto o romance de Ishiguro atua como um bloco de narrativa única. A capa é linda e tem um belo efeito metalizado, com a gravura da Mansão Darlington de fundo e a diagramação está ótima, com fonte em bom tamanho, revisão de qualidade e os cortes laterais em tom cobre. Recomendo ☺

Confira o trailer do filme Os Vestígios do Dia:



3 comentários:

  1. Sinto que é um livro que me deixaria de coração apertado, mesmo com Stevens sendo um homem tão frio. Sou do tipo que chora a toa quando a leitura me prende então imagino que ficaria emocionada. Já me peguei me questionando sobre tempo perdido mas ainda sou nova e tenho tempo para recuperar isso mas ele perdeu toda uma vida. Tarde demais.

    Abraço,
    Parágrafo Cult

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  2. Amei sua resenha, essa história deve ser impactante, fiquei com vontade de conhecê-la mais a fundo!

    https://www.kailagarcia.com

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  3. Oi Nessa
    Não conhecia o livro, mas sua resenha me despertou interesse. Quem sabe assisto ao filme.

    Beijinhos
    https://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com

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