24/11/2019

Resenha: O Filósofo Voador - Eduardo Rascov

Edição: 1
Ano: 2009
Gênero: Romance
Páginas: 160
Editora: Terceira Margem
Classificação: 4/5
O livro O Filósofo Voador, do paulista Eduardo Rascov, nos traz uma história bem delineada e interessante sobre o artista circense Dover Tangará, conhecido como um dos maiores trapezistas do Brasil e que, infelizmente, passou os últimos anos de sua vida vivendo nas ruas de São Paulo. Aos vinte anos de idade, Dover fazia muito sucesso no circo, ao ponto de ter o mundo aos seus pés mas, após sofrer um bruto golpe da repressão militar, viu tudo o que tinha esfarelar sobre as suas mãos, sendo obrigado a morar em um trailer pelo subúrbio de São Paulo, conhecendo a violência, as drogas, as bebidas e todo o submundo da periferia face a face. Confesso que este é o tipo de livro que não faz muito o meu gênero, mas fui surpreendida positivamente com a história de vida de Dover, sobretudo com a escrita de Rascov, que tem traços tantos biográficos quanto poéticos.

Não precisamos ir muito longe para conhecermos histórias de pessoas que viveram na fama e estrelato e de repente, perderam tudo, como num passe de mágica. Muitas por esbanjarem dinheiro alimentando os seus instintos mais primitivos; já outras porque foram prejudicadas em algum momento por alguém ou vieram a sofrer algum infortúnio. Dover nasceu em uma família circense tradicional e desde cedo, teve a lona do picadeiro como o seu mundo, ou melhor dizendo, como sua segunda pele. Em meio a acrobacias e números audaciosos pelo ar, ele foi ovacionado pelo público por diversas vezes, experimentando o gosto da glória e da fama.

Porém, na década de 70, Dover foi alvo da ditadura militar, o que fez com que ele fosse preso injustamente em Curitiba, acusado de ter dado falso testemunho a favor de um contorcionista argentino. Desde então, iniciou-se o calvário na vida do artista circense, que acabou indo parar em um hospital psiquiátrico, o que acabou por minar pouco a pouco sua mente e a levá-lo para a sarjeta. Em meio aos mendigos, enfrentando a realidade nua e crua das ruas e as intempéries do asfalto, Dover luta para manter sua dignidade e sabedoria, ajudando como pode as pessoas ao seu redor e fantasiando um mundo só seu, onde ele ainda pode voar livremente - tal como nos picadeiros.

O Filósofo Voador retrata não só a história deste artista circense - até então esquecido e ainda obscuro para muitos - como também a queda vertiginosa de muitas pessoas do estrelato para o caos, bem como a luta da arte e da cultura para sobreviver em meio a um mundo que lhes fornece tão parcos recursos e insiste em se fundir cada vez mais com a tecnologia. Eduardo Rascov deu tons ficcionais a este personagem real, transportando sua história de vida para a literatura com uma linguagem poética, o que transfigurou-se em uma biografia quase que romantizada de Dover Tangará e de sua trajetória tão acalorada e árdua por este mundo.

Com uma narrativa feita em terceira pessoa e dividida em dois tempos, acompanhamos as memórias de infância e adolescência de Dover Tangará em meio as suas peripécias no trapézio como também a urbe formada pelos moradores de ruas, sem a assistência do Estado, família e amigos, tendo como consolo o frio e duro asfalto e a paisagem nebulosa e sombria do céu aberto. O que mais me chamou a atenção no personagem foi a sua generosidade e dignidade diante de todos os obstáculos. Mesmo carente, sem recursos e quaisquer tipos de bens materiais, Dover sempre procurou ajudar as pessoas ao seu redor, seja com uma palavra; abrigando-as em seu humilde e pequeno trailer ou até mesmo as protegendo da bandidagem e da violência, de acordo com a sua integridade e modo próprio de ser. Infelizmente, Dover Tangará foi vítima da violência que tanto presenciou nas ruas, sendo espancado até ficar tetraplégico e morrendo em um hospital em agosto de 2012

Em síntese, O Filósofo Voador retrata em suas páginas não somente a história do artista Dover Tangará como também um pouco da história da urbanização de São Paulo, especialmente durante o projeto de revitalização das favelas do centro paulistano no governo Maluf. Vasculhando as memórias de Dover, também acompanhamos episódios tristes e muito dolorosos da trajetória do Brasil, como a tragédia do Gran Circus Norte-Americano, ocorrida em 1961 em Niterói (RJ), onde um incêndio criminoso ceifou a vida de 503 pessoas, deixando mais de 800 vítimas feridas e também a ditadura militar (1964-1985) que, mesmo não sendo fortemente retratada no livro, corrompeu muitas vidas e devastou inúmeras famílias, inclusive a vida do próprio artista em questão. A capa do livro é simples e nos traz uma fotografia de Dover Tangará em matizes avermelhadas e a diagramação está ótima, com fonte em bom tamanho e revisão de qualidade. Recomendo.


7 comentários:

  1. Não conhecia esse livro, nem nenhuma obra do autor, mas fiquei curiosa para conhecer! ❤

    https://www.kailagarcia.com

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  2. Puxa, que surpresa! Muito obrigado, Vanessa. O engraçado é que, agora que estou fazendo um mestrado na USP, pude compartilhar o "Filósofo" com alguns pesquisadores. E tenho recebido comentários muito interessantes, como os seus. Dez anos depois, parece que há um reflorescimento do interesse pela obra.

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  3. Oi Nessa,
    Eu não conhecia a obra. Achei interessante os pontos que o autor discorre, e esse cenário de SP que muda conforme a narrativa.
    Acho que só fui ao circo uma vez na vida.

    até mais,
    Canto Cultzíneo

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  4. Parece ótimo, gosto de prestigiar a literatura nacional atual.

    cobaiaamiga.com

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  5. nossa mt bacana conhecer esse livro que parece mesmo ter uma história super interessante retratando esse artista

    www.tofucolorido.com.br
    www.facebook.com/blogtofucolorido

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  6. Oi, como vai?
    Infelizmente essa é uma história bem triste e real. A literatura nacional sempre nos presenteia com tesouros, né? Eu não sei se leria por não ser meu estilo mas não nego a minha curiosidade para com o livro. Apesar de saber que eu ficaria bem triste durante a leitura.

    Abraço,
    Larissa | Parágrafo Cult

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  7. Oi Nessa,
    Não conhecia a obra, infelizmente, não faz muito meu estilo.
    Mas fico feliz que você tenha gostado!
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com/

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